Energia e Sustentabilidade – Uma pequena reflexão.

Milton Matos Rolim – Prof. Dr.

Em seu livro “Economia Solar Global” o economista Hermann Scheer, defende a substituição da economia fóssil atualmente dominante do mercado mundial, por uma economia de base solar, colocando a Energia Solar, a Energia Eólica e outras fontes de energia não cumbustíveis, bem como a biomassa, como os representantes dos recursos renováveis (não fósseis). O que pouca gente deve ter prestado atenção é que ele não se referia apenas a energia, mas também a matéria prima e alimentos.

Esta desatenção faz com que pessoas menos esclarecidas pensem que a biomassa como recurso renovável deva ser destinada a produção de energia. Esta falta de visão leva muitos a acreditar que os biocombustíveis, inclusive a lenha e o carvão vegetal, tenham o mesmo status das energias não combustíveis, como a solar. Com isto estamos alimentando atividades da chamada “bioenergia”, em muitos casos, extremamente  danosas para o clima, como as grandes monoculturas.

As fontes renováveis chegaram a 48,4% de toda a energia produzida no Brasil em 2008, conforme o Balanço Energético Nacional (BEN, 2009). Mas o resultado pode não ser positivo, pois o relatório aponta o aumento do uso da cana-de-açúcar na produção de energia, responsáveis por 19,0% da matriz energética do país (em 2008). O Brasil precisa investir em fontes alternativas, como a energia solar e eólica, que agridem muito menos o meio ambiente.

Segundo a Agência Europeia do Ambiente, aumentar a utilização de energias renováveis oferece oportunidades significativas para a Europa reduzir efeito estufa e garantir a seu fornecimento de energia. No entanto, o aumento considerável na utilização de biomassa proveniente da silvicultura, agricultura e resíduos para produção de energia pode colocar uma pressão adicional sobre as terras agricultáveis e a biodiversidade, bem como no solo e recursos hídricos. Também pode neutralizar outras políticas e objetivos ambientais, como a minimização de resíduos ou a atividades agro-ecológicas. A tão elogiada bioenergia pode representar mais um perigo para sustentabilidade Ambiental, Econômica e Social, que uma solução.

É interessante observar que o aumento da utilização da energia renovável como oportunidade, sinaliza a possibilidade de problemas graves para sustentabilidade, em relação à energia combustível (biomassa) e não em relação as não combustíveis, como a solar e a eólica.

Um estudo da (OCDE), realizado em conjunto com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), explicou que os atuais preços elevados dos alimentos são em grande parte um resultado de fatores de curto prazo. Mas em médio prazo, maiores preços do petróleo e aumento da demanda por biocombustíveis poderia causar um aumento estrutural dos preços dos alimentos. De acordo com as projeções atuais, o aumento pode resultar em preços dos alimentos 10% a 50% acima dos preços médios dos últimos dez anos.

Ainda segundo a Agência Europeia do Ambiente, os solos e as plantas são dois dos maiores armazéns de CO2 nas terras cultiváveis, contendo duas vezes mais carbono que a nossa atmosfera. Transformar floresta, terreno turfoso ou pastagens em massa para a produção de biocombustível iria liberar mais CO2 do que reduzi-lo.

O cientista James Lovelock, criador da Teoria Gaia, considerado um dos maiores pensadores de nosso tempo e uma das figuras mais influentes do movimento ambientalista, em seu livro “A Vingança de Gaia”, afirma que:

Queimar combustível fóssil para obter energia não é pior, em termos qualitativos, do que queimar madeira. Nosso delito, se este é um termo apropriado, e extrair energia da Terra centenas de vezes mais rápido do que ela é naturalmente disponível. Nosso pecado é quantitativo, não qualitativo. Na verdade, queimar grandes quantidades de madeira, ou culturas cultivadas para servir de combustível – algo considerado, de modo errôneo, como energia renovável – é potencialmente mais destrutivo para o sistema da Terra do que obter energia de combustíveis fósseis. Tanto combustíveis fósseis como os bicombustíveis são quantitativamente não renováveis quando queimados na quantidade excessiva exigida por nossa civilização superdimensionada e dependente de energia.

Outro aspecto diz respeito ao custo. Em 2009 o litro do óleo de mamona e o de soja estava na casa de R$ 2,70, segundo a EMBRAPA. Se o biodiesel custa em torno de R$ 2,00 na bomba, resta perguntar quem está pagando a diferença de preço e o processo de transformação de óleo de soja em biodiesel? A verdade é que a produção agrícola tem utilidades muito mais valiosas que o uso energético, principalmente como alimento. Desta forma não é racional imaginar que os biocombustíveis podem custar menos que outras fontes de energia, em longo prazo.

Finalmente devemos entender que a biomassa, como recurso renovável tem importância vital no fornecimento de matéria prima, especialmente para alimentação. Mas como energia deve se restringir ao aproveitamento de resíduos, especialmente através de biodigestores, que além produzirem material que podem retornar a natureza, até mesmo como fertilizante, fornecem como resíduos o metano, que é compatível com as aplicações do gás natural.

Produção de Gesso com Energia Solar no Araripe.

Publicação do informativoITEP de 26 de Agosto de 2011.

Produção de gesso com Energia Solar no Araripe.

Foi aprovado pelo CNPq o projeto “Desenvolvimento de Tecnologia para Produção de Gesso Reciclável em Forno Contínuo Aquecido a Energia Solar”, apresentado pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), que será desenvolvido mediante parceria com o Centro Tecnológico do Araripe (CTAraripe). Segundo Milton Rolim, do CTAraripe, o projeto pode ser considerado um marco importante na busca de sustentabilidade do setor gessiro do Araripe, pelos aspectos inovadores. “As melhorias serão tanto no que se refere a qualidade do produto final quanto a utilização dos recursos naturais, devido a produção de gesso reciclável e de qualidade superior com a introdução da energia solar no setor”, explica ele.

Para ler a notícia no Informativo ITEP clique aqui.

Por que Energia Solar no Araripe?

O título  deste site, “Araripe Solar Sustentável”, sugiu da idéia de divulgar a alternativa da energia solar para Região do Araripe, por algumas justificativas.

1) Como apresentei em 17/01/2012, no Centro Tecnológico do Araripe, a energia solar ocupa entre 100 e 400 vezes menos área que a lenha ou biocombustíveis.
2) A melhor área para a energia solar, normalmente, é a pior para a agricultura, o que permite colocá-la na parte baixa, onde estiver mais degradada.
3) A energia solar não precisa, necessáriamente, de grandes áreas contínuas, podendo ser colocada distribuida próxima aos locais de consumo.
4) A região tem potencial para gerar toda a sua energia e ainda exportar para outras regiões, utilizando a energia solar.
5) A fabricação de coletores solares térmicos, em especial, pode ser realizada na região, gerando emprego e renda.
6) A operação e manutenção dos equipamentos também geram empregos.
7) A energia solar é inesgotável e portanto sustentável, não necessitando o título de renovável, além de ser a mais abundante que qualquer outra fonte e de permitir a independência energética da Região.
8) A energia solar não emite qualquer poluente durante sua utilização, além de poder reciclar totalmente os materiais utilizados na construção dos coletores, ao final do uso.
9) Se fizermos isto de forma organizada, poderemos ter a tecnologia adequada as nossas necessidades, sem depender de tecnologia importada (a tecnologia solar é relativamente simples, apenas precisa conhecimento e prática para usá-la adequadamente).

É necessário sensibilizarmos os gestores públicos para investirem em pesquisa, desenvolvimento, inovação e difusão, para permitir que o conhecimento existente seja colocados a serviço da sociedade. Estes investimentos devem ser bem orientados de forma a tornar a tecnologia disponível comercialmente, no menor tempo possível.

Já que o Brasil precisa imediatamente alcançar os países desenvolvidos no que tange a energia solar, porque não começar pelo Araripe, que vive um caos em energia térmica, quando a energia solar para aquecimento já é competitiva com os combustíveis convencionais?

O Centro Tecnológico do Araripe participa como parceiro, do projeto coordenado pela Universidade Católica de Pernambuco e aprovado pelo CNPq, para desenvolvimento de forno com tecnologia para produção de gesso reciclável, operando com qualquer combustível convencional e ainda podendo usar energia solar.