O PARADIGMA ENERGÉTICO (QUAL O REAL DILEMA?)

Este texto busca informar sobre o aparente dilema da humanidade, entre energia renovável e não renovável, e o verdadeiro dilema, ou seja, a escolha entre energia combustível e não combustível.

INTRODUÇÃO

A geração de energia de forma sustentável é um dos temas mais discutidos na atualidade. As decisões sobre as formas de geração (fontes) e mudanças nos hábitos de consumo (conservação) determinarão se o nosso futuro será sustentável ou não. Na busca de melhor direcionar as ações visando sustentabilidade utilizam-se os conceitos de energia renovável e fóssil (não renovável). Estas definições, no entanto, não representam uma forma adequada de conceituar o dilema da humanidade, no que se refere à escolha do caminho a seguir quanto a utilização de energia, não servindo assim para definição de medidas estruturadoras para o futuro.

PRODUÇÃO DE ENERGIA PRIMÁRIA NO BRASIL

A Tab. 1 apresenta os valores da produção de energia primária nos anos de 2007 e 2008, no Brasil, constantes do Balanço Energético Nacional (BEN, 2009).

Tabela 1. Energia Renovável e Não Renovável (BEN, 2009)

  Fonte 2007(%) 2008(%)
01 Energia Não Renovável 51,4 51,6
  Petróleo 40,6 39,7
  Gás Natural 8,1 9,0
  Carvão vapor 1,0 1,1
  Carvão Metalúrgico 0,1 0,1
  Urânio (U308) 1,6 1,7
02 Energia Renovável 48,6 48,4
  Energia Hidráulica 14,4 13,4
  Lenha 12,8 12,4
  Produtos da Cana 18,1 19,0
  Outras renováveis 3,3 3,6

As fontes renováveis chegaram a 48,4% de toda a energia produzida no Brasil em 2008, conforme o Balanço Energético Nacional (BEN, 2009). Entretanto, em termos de perspectiva futura, o Brasil precisa investir em fontes renováveis, como a energia eólica e solar, que agridem muito menos o meio ambiente (Luna et al, 2010).

A principal consequência destas definições, renovável e não renovável, é a corrida para os biocombustíveis, que mais representa um retrocesso ao tempo da exploração insustentável da lenha, durante o Império Romano.

Aumentar a utilização de energias renováveis, aparentemente, oferece oportunidades significativas para reduzir efeito estufa e garantir fornecimento de energia. No entanto, o aumento considerável na utilização de biomassa proveniente da silvicultura, agricultura e resíduos para produção de energia pode colocar uma pressão adicional sobre as terras agricultáveis e a biodiversidade, bem como no solo e recursos hídricos. Também pode neutralizar outras políticas e objetivos ambientais, como a minimização de resíduos ou a atividades agro-ecológicas. A bioenergia deve ser analisada com cuidado já que pode representar mais um perigo para sustentabilidade Ambiental, Econômica e Social, que uma solução, EEA (2006).

Os solos e as plantas são dois dos maiores armazéns de CO2 nas terras cultiváveis, contendo duas vezes mais carbono que a nossa atmosfera. Transformar floresta, terreno turfoso ou pastagens em massa para a produção de biocombustível iria liberar mais CO2 do que reduzi-lo. (AEA, 2011). Um estudo, realizado em conjunto com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), explica que em médio prazo, maiores preços do petróleo e aumento da demanda por biocombustíveis poderia causar um aumento estrutural dos preços dos alimentos. De acordo com as projeções atuais, esses fatores podem promover aumentos dos preços dos alimentos em torno de 10% a 50% acima dos preços médios dos últimos dez anos, (OCDE).

Outro aspecto a ser considerado é a ocupação de área. Segundo Rüther 2010, o carro movido a etanol exigiria mais de 200 vezes a área necessária para alimentar um carro elétrico com energia solar fotovoltaica.

Com a finalidade de destacar outras dimensões das fontes primárias de energia, apresentamos, durante o IV Congresso Brasileiro de Energia Solar, de 18 a 21 de setembro de 2012, a sugestão de utilização de nova terminologia, ou seja: Energia Combustível e Energia não combustível. Esta divisão então é subdividida em renovável e não renovável. A Tab. 1 seria então apresentada na forma da Tab. 2.

Tabela 2. Energias Combustíveis e Não Combustíveis.

  Fonte 2007(%) 2008(%)
01 Energia Combustível 80,7 81,3
     
Renovável 30,9 31,4
  Lenha 12,8 12,4
  Produtos da Cana 18,1 19,0
     
Não Renovável 49,8 49,9
  Petróleo 40,6 39,7
  Gás Natural 8,1 9,0
  Carvão vapor 1,0 1,1
  Carvão Metalúrgico 0,1 0,1
02 Energia não Combustível 19,3 18,7
     
Renovável 17,7 17,0
  Energia Hidráulica 14,4 13,4
  Outras renováveis (pode incluir combustível) 3,3 3,6
     
Não Renovável 1,6 1,7
Urânio (U308) 1,6 1,7

Atualmente mais de 80% da energia do Brasil é oriunda de fontes combustíveis. Identifica-se desta maneira a necessidade de mudança das fontes combustíveis para não combustíveis, justificada pela natureza do processo de combustão, intrinsecamente um produtor de CO2. Além disso, dependendo da fonte, a combustão pode ser um grande gerador de poluição atmosférica, como as emissões de enxofre, que produzem a chuva ácida, cinzas e outros poluentes.

Um programa de transição de energia combustível para energia não combustível, em especial a solar que precisa se tornar de uso comum, virá modificar substancialmente as fontes e formas de uso dos energéticos no presente.

A pergunta que fica é a seguinte: pode-se ter energia de fonte não combustível na quantidade necessária? Se não houver modificação dos equipamentos e processos para receber este tipo de energia (não combustível), não será possível. Mas se pudermos mudar a tecnologia então teremos uma melhor visão do potencial destas energias, como pode ser visualizado na Fig. 1, adaptada de HICOW (2012).

Imagem

Figura 1 – Potencial das Energias não combustíveis (Adaptado de HICOW 2012)

                Na Fig. 1 podemos observar que, em termos de ordem de grandeza, seria necessário utilizar aproximadamente 2,0% do potencial da energia eólica ou aproximadamente 0,02% do potencial da energia solar, para atender nossa necessidade mundial atual de energia.

Isto tudo indica que nosso problema não é o de falta de fontes de energia não combustível, mas sim de tecnologia que possibilite sua utilização.

Deste ponto de vista, fica mais clara a importância do desenvolvimento da tecnologia solar e eólica. A escolha entre uma ou outra fonte não combustível (solar, eólica ou outra) dependerá de bom senso, utilizando-se a mais adequada para cada localidade ou processo em questão.

A biomassa, como energia, não deve ser totalmente descartada, em especial aquela oriunda de resíduos agrícolas, que através de processo de biodigestão, além de produzir biofertilizante, libera como resíduo o metano (CH4), perfeitamente compatível com aquelas aplicações do gás natural (GN) ou liquefeito de petróleo (GLP). Mas devemos ter em mente que políticas ambientais sérias buscam reduzir a quantidade de resíduo gerado.

Assim as definições de energia renovável e não renovável devem ser completadas pelos atributos relativos à sustentabilidade ou não da energia. Sugere-se, também, introduzir na sua denominação, a tecnologia de conversão da forma primária de energia, dividindo-se em energia combustível e não combustível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AEA, 2011. Se o uso da bioenergia aumentar demais — A substituição do petróleo pela bioenergia não é isenta de riscos. Acessado em 12/03/2012. http://www.eea.europa.eu/pt/articles/se-o-uso-da-bioenergia-aumentar-demais-2014-a-substituicao-do-petroleo-pela-bioenergia-nao-e-isenta-de-riscos

BEN, 2009.- Balanço Energético Nacional, MME.

EEA, 2006. How much bioenergy can Europe produce without harming the environment. EEA Report No 7/2006. Disponível em http://www.eea.europa.eu/publications/eea_report_2006_7.

HICOW, 2012. Potential energy source – Solar Power: a Renewable Source of Energy. Acessado em 12/01/2012, em http://www.hicow.com/renewable-energy/energy/solar-power-2221878.html

Luna, A.; Spitzcovsky, D.; Felipe Matula, F.; Bergamodo, L. RROnline*. Acessado em 30/10/11 em (http://noticias.bol.uol.com.br/economia/2010/06/12/crise-financeira-e-chuva-impulsionam-uso-de-energias-renovaveis-no-pais.jhtm).

OECD, 2008. Economic assessment of biofuel support policies. Organisation for Economic Development and Cooperation, Paris.

Rüther, R . Os veículos elétricos e a energia solar fotovoltaica como alternativa aos biocombustíveis. In: Heline Sivini Ferreira, José Rubens Morato Leite. (Org.). Biocombustíveis: fonte de energia sustentável? Considerações jurídicas, técnicas e éticas. Biocombustíveis: fonte de energia sustentável? Considerações jurídicas, técnicas e éticas. 1ed.São Paulo: Editora Saraiva, 2010, v. 1, p. 79-90.

 

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