BUSCA DA SABEDORIA

Milton Matos Rolim

                Segundo o que circula nas redes sociais, o grande sábio chinês Confúcio (500 a. C.) teria dito:

“Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.”

                Então vamos tentar usar o primeiro método para refletir sobre a citação acima tomando-a como um princípio, um postulado. Isto é, vamos analisar sua aplicação aceitando sua validade.

                O primeiro método, por ser o mais nobre, é o que devemos utilizar em primeiro lugar. Isto porque quando buscamos aprender por reflexão, não interferimos nos fatos nem com as pessoas e outros seres vivos. Analisamos como algo externo, de acordo com as informações que chegam a nossa mente, por qualquer meio. Isto é, com aquilo que realmente somos analisamos o que não somos. Isto é extremamente difícil de ser feito, pois temos a tendência de ver no outro os defeitos e qualidade que são nossos e não do outro, como indivíduo.

                O segundo, por ser o mais fácil, é o que devemos utilizar quando não conseguimos pelo primeiro, que é o mais nobre, e desejamos evitar o terceiro, que é o mais amargo. Paradoxalmente, na prática, o mais fácil pode parecer o mais difícil, pois exige de nós algo que poucos tem a capacidade de oferecer. Este método exige humildade de aceitar nossas limitações e, principalmente, que outros podem ter superado estas limitações e que seguir o exemplo destas pessoas pode nos tornar melhores, trazendo assim a sabedoria que não conseguimos com o primeiro método.

                O terceiro, por ser o mais amargo, é o que tentamos evitar. Porém, o único meio de evitá-lo é ter adquirido esta sabedoria pelos dois primeiros métodos. Isto significa que os dois primeiros métodos são opcionais, mas se não escolhemos um deles, seremos submetidos automaticamente ao terceiro, ao mais amargo. É como aquela criança que não entendeu ainda que uma panela quente pode queimar e então coloca a mão nela e se queima. Aprende, pelo método mais amargo, que não deve colocar a mão na panela quente.

                O normal, ao final de um texto, é se fazer uma conclusão sobre o que foi dito, mas acho que seria interessante deixar que cada um tire sua conclusão, inclusive sobre a validade do que escrevi, “por reflexão”.

 

 

Epistemologia genética ou Teoria Genética da Aprendizagem?

Milton Matos Rolim – Prof. Dr.

As teorias pedagógicas de cunho psico genético tem dominado as políticas estatais do ensino (erroneamente chamado de educação), dando a impressão de que as discussões sobre o tema são circulares e sem nenhuma perspectiva de saída. Nestes, aproximadamente, 30 anos na educação demorei muito para entender a armadilha e tenho “quebrado a cabeça” para tentar alertar meus colegas professores sobre este “looping” ideológico. A impressão que tenho é de que quanto mais os professores estudam, quanto mais se aprofundam no tema, mais se perdem em racionalizações “descoladas” da realidade (entenda “descoladas” como quiser).
O segredo é que a chamada epistemologia genética não pode ser chamada de epistemologia, no máximo de “Teoria Genética da Aprendizagem”. Esta simples mudança na terminologia nos indica que podemos então aplicar uma epistemologia para analisa-la, não podendo ser ela própria, a “Epistemologia Genética”, a ser utilizada. Então para proceder esta análise tomemos a própria definição do que estou chamando de teoria genética da aprendizagem.
Em (https://www.significados.com.br/epistemologia/) temos:
“A Epistemologia Genética (teoria genética da aprendizagem) consiste em uma teoria elaborada pelo psicólogo e filósofo Jean Piaget. A epistemologia genética é um resumo de duas teorias existentes, o apriorismo e o empirismo. Para Piaget, o conhecimento não é algo inato dentro de um indivíduo, como afirma o apriorismo. De igual forma o conhecimento não é exclusivamente alcançado através da observação do meio envolvente, como declara o empirismo. Segundo Piaget, o conhecimento é produzido graças a uma interação do indivíduo com o seu meio, de acordo com estruturas que fazem parte do próprio indivíduo.”
O link da nova escola (https://novaescola.org.br/conteudo/1922/o-sujeito-epistemico-de-piaget) complementa com:
“’As coordenações de todos os sistemas de ação traduzem, assim, o que há de comum em todos os sujeitos e se referem, portanto, a um sujeito universal, ou seja, sujeito epistêmico e não ao sujeito individual.’ (Jean Piaget e Beth Evert, no livro Épistémologie Mathématique et Psychologie). Comentário: Para chegar ao conceito do sujeito epistêmico, Piaget investigou características comuns a todas as pessoas no processo do desenvolvimento da inteligência. De acordo com ele, ‘o que há de comum em todos os sujeitos’ é a maneira como elas estruturam e organizam as coisas que conhecem: a capacidade de relacionar, classificar, abstrair, separar e agrupar, entre outras, que o autor chama de ‘coordenações de sistemas de ação’. O sujeito individual, por outro lado, é único: vive em época e cultura específicas, que influenciam suas crenças e opiniões.”
O que as fontes não deixam claro é que este conceito é desenvolvido em cima de postulados materialistas ou naturalistas, ou seja, dentro de uma cosmovisão específica com todos os seus postulados e dogmas. Discutir esta cosmovisão está além do alcance da ciência atual que é exatamente fruto desta cosmovisão (materialista ou naturalista).
O truque mágico que nos trouxe a estas definições circulares foi exatamente chamar o conceito criado, a partir de uma “epistemologia” específica, de epistemologia fugindo assim da possibilidade de uma crítica epistemológica.
Assim, o resumo das duas teorias, o apriorismo e o empirismo, é na verdade uma síntese hegeliana, com pitadas de darwinismo, dos dois polos do materialismo. O primeiro que afirmava que o aprendizado é determinado pela biologia e o segundo, antítese do primeiro, que o aprendizado é determinado pelo ambiente.
Meu desafio aos defensores de Piaget é demonstrar, epistemologicamente, que a Epistemologia Genética (que estou chamando de Teoria Genética da aprendizagem) pode ser usada como axioma ou postulado para toda a parafernália de teorias desenvolvidas pelos construtivistas?

TEORIA

Prof. Dr. Milton Rolim

Para facilitar uma explicação em uma palestra (https://www.youtube.com/watch?v=0WxNzSjCQtM&t=540s) utilizei a definição de “teoria”, do senso comum, facilmente encontrada na internet: “Conhecimento de ordem especulativa, geralmente racional”. Um amigo gentilmente me sugeriu utilizar uma definição mais científica. Isto gerou um debate interessante pela internet, que me fez escrever este texto. Após uma noite de sono acordei com a lembrança de duas frases que ouvi. Uma diz “precisamos resgatar a língua e a literatura” e a outra “as palavras representam formas”.
Entendi, em parte, minha própria relutância em aceitar dogmaticamente as definições científicas ou religiosas e minha insistência na etimologia ou origem das palavras. Neste caso o da palavra “Teoria” e me perguntei: “Que forma ou ideia a palavra teoria quer descrever”? Uma busca rápida na intenet (http://www.dicionarioetimologico.com.br/teoria/) me forneceu a seguinte definição: “A palavra grega theoreîn significa olhar através de. Aquele que olha é chamado de theorós (espectador). Assim tem-se: Theoreîn = théa (através) + horós (ver)”. Neste caso a palavra teoria fala de algo que está além da forma ou do fenômeno, além da observação. Neste caso a definição do senso comum que utilizei continuou a me parecer adequada para o que eu estava tentando explicar.
Esta frutífera discussão que tive, como todo momento de debate faz, me levou a refletir mais sobre isto. Exatamente neste ponto acho que a ciência não poderia redefinir as palavras impondo critérios para o que pode ser chamado por este ou aquele nome. Isto é exatamente o que a “mentalidade revolucionária” faz. Se a ciência deseja utilizar a palavra teoria para uma ideia ou forma científica, então deveria se chamar “Teoria Científica”, ou seja, um significado restrito da palavra e não redefinir a palavra. Isto me parece ser uma interversão autoritária na língua e na cultura representada por determinada língua. O mesmo poderia ser dito para outras palavras como “Lei”, “Princípio”, “Liberdade”, etc. A ciência tem abrangência limitada, por isto deve criar novas palavras, mesmo que por composição como “teoria científica”, para definir sua aplicação de termos de etimologia bem definida. Ou seja, ela já descreve uma ideia específica e se for redefinida gerará confusão. Assim acredito que se deixarmos cientistas, religiosos, ateus ou qualquer outro grupo redefinir as palavras estaremos aceitando a “novilíngua” do filme “1984” de George Orwell (https://www.youtube.com/watch?v=c4wuwEIQafg).
Retomando as frases que citei no início, acho que elas são muito pertinentes. Para recuperar nossa sanidade devemos recuperar nossa língua e entender que palavras representam formas, concretas ou abstratas, nunca a verdade por trás do que é observado ou abstraído, se acreditamos que existe algo além do mundo material que observamos. Se acreditamos que tudo que existe é o que vemos, ou que nossa mente consegue conceber, então estaremos do lado da ciência materialista.
A pergunta que fica é: Que “Princípio” tomaremos como verdade? O materialista ou o não materialista?

OS VÓRTICES

Prof. Dr. Milton Matos Rolim

Quando partículas inertes, no conforto do equilíbrio de fluido calmo, são reviradas umas contra outras, sem que se entenda porque nem como resistir, sua força voraz produz um vórtice que tudo traga, a tudo suga para o redemoinho que se agiganta em um tornado levando telhados, casas e objetos enormes e nos levam a questionar: como aquelas partículas minúsculas puderam levantar tamanha força destrutiva?
Assim é a sociedade em sua maioria. As pessoas vão se acomodando em suas zonas de conforto, buscando pontos de mínima pressão. Isto cria um equilíbrio que passa a falsa sensação de estabilidade. Porém, a busca de menor pressão sobre alguns, acaba por sobrecarregar de pressão outros pontos, ou outros segmentos da sociedade, pois pessoas não são partículas inertes. Quando estes pontos entram em colapso, iniciando um vórtice, começam a dragar aqueles que estavam em sua zona de conforto para o vórtice que, ao seu final, deixa um rastro de destruição.
Alguns pseudointelectuais, percebendo este fenômeno, de como estes vórtices de partículas em fluido podem ser criados e, com alguma previsibilidade, evitado seu caminho natural, concluíram que seria uma boa ideia aplicar estes conhecimentos à sociedade, em uma verdadeira engenharia social.
Destes pensamentos mecanicistas surgiram verdadeiros criadores de vórtices que, em uma inspiração macabra (ou pelo menos maquiavélica), tentam modelar a sociedade criando estes turbilhões sociais, através da criação de classes e estímulos a luta de classes.
Como se estes novos feiticeiros não tivessem feito suficiente estragos, temos agora milhões de aprendizes de feiticeiros criando turbilhões em seus trabalhos, seus bairros, suas religiões, suas torcidas de futebol e em cada local de convivência, até mesmo na família. Esta mentalidade de criação de caos se proliferou de tal forma que temos, a todo instante, a impressão de estarmos mergulhados em um caos geral, do qual não temos força para sair.
Para superar esta situação precisamos, antes de tudo, não permitir nos tornarmos fonte destas ebulições, nem por inércia na zona de conforto, nem por desespero na zona de pressão elevada. Em seguida devemos ser fortes o suficiente para não contribuirmos com outros portadores do caos, neutralizando sua ação ou inércia. E, finalmente, superadas as primeiras duas etapas, quem sabe, podemos contribuir com outros que também querem deixar de ser portadores do caos, para se tornarem portadores da ordem. É simples, mas não significa que seja fácil.

MENSAGEM AOS FORMANDOS – FAFOPA 2015.2

“Mensagem dirigida aos formando da Faculdade de Formação de Professores FAFOPA – Turma 2015.2”

Vivemos num tempo em que o relativismo moral destrói dia após dia os valores fundamentais da sociedade. A ausência de referências leva as pessoas, em sua maioria, a se perderem em um mundo caótico, no qual tudo é qualquer coisa e nada é coisa alguma. Mas, de professores, o mínimo que se pode esperar é que não sejam como o maioria das pessoas, para que possam se tornar referências neste turbilhão de futilidade que nosso mundo se tornou.
Desta forma não poderia deixar passar a oportunidade de dizer algumas palavras ao formandos, em especial aos de Licenciatura em Física, dos quais fui Coordenador e professor, desde o primeiro período.
Amit Goswami, PhD em física quântica e professor emérito nos Estados Unidos, escreveu: “Um nível crítico de confusão satura o mundo contemporâneo. Nossa fé nos componentes espirituais da vida – na realidade vital da consciência, dos valores e de Deus – está sendo corroída sob o ataque implacável do materialismo científico. Por um lado recebemos de braços abertos os benefícios gerados por uma ciência que assume a visão mundial materialista. Por outro, essa visão, predominante, não consegue corresponder às nossas intuições sobre o significado da vida… As atribulações em que vivemos alimentaram a exigência de um novo paradigma – uma visão unificadora do mundo que integre mente e espírito na ciência. Nenhum novo paradigma, contudo, emergiu até agora.”
Cito estas palavras neste momento, para lembrá-los de que a ciência, mesmo com todas as suas conquistas e tendo nos trazido desenvolvimento tecnológico, nunca nos poderá dar alento a alma, aquela centelha divina que, quando contemplada de coração, faz a mais refinada e desenvolvida tecnologia, parecer um conjunto de arco e flecha. Esta centelha divina produz cada um de nós, com nossas dúvidas e convicções, angústias e entusiasmos, tristezas e alegrias.
Sei que diante destas palavras alguns podem se perguntar: então para que estudei tanto? Por que ainda me sugerem fazer pós-graduação, mestrado, doutorado? Gostaria de tentar esclarecer isto usando uma analogia. O estudo lhe mostra como fazer as coisas, mas só sua consciência poderá lhe dizer que coisas fazer e que coisas evitar que sejam feitas. Ao adquirir conhecimento é como se você tivesse feito um curso de pintura, aprendido as técnicas e comprado seu material básico. Isto não fará de você um artista, mas sim o que você criará com este aprendizado básico. Você tem tudo que precisa para fazer uma obra de arte, mas poderá fazer ou não.
É isto que o seu curso lhes proporcionou, as ferramentas para exercerem a profissão de professor. A partir de agora vocês fazem parte do grupo de pessoas que fornecem estas ferramentas básicas aos estudantes, para que eles possam expressar suas potencialidades, cada um em sua maneira única.
Como diz o livro do Filósofo Armindo Moreira “Professor Não é Educador”, por isto não queiram ser educadores dos filhos alheios, em hipótese alguma tentem modelar o pensamento e o comportamento de seus alunos e, principalmente, não aceitem que o respeito aos semelhantes seja relativizado. Nunca deixe dúvida onde não existe: 2+2 é igual a 4 e ponto. Ao mesmo tempo não queira impor como regra a ser seguida as elucubrações da mente humana: evolucionismo, criacionismo, materialismo, etc, são tão somente conjecturas da mente humana, para tentar explicar a existência, mas não são fenômenos da natureza em si.
Infelizmente teorias como a teoria crítica e outras, inverteram os valores e a lógica de tal sorte que vivemos em um mundo absurdo onde querem que os filhos eduquem os pais e os alunos ensinem os professores. Onde os bandidos são considerados vítimas da sociedade e as vítimas consideradas opressores. Honestidade passou a ser considerada uma fraqueza e a manipulação desonesta motivo de orgulho.
Não digo isto para desanimá-los, mas para pedir que não se tornem este tipo de profissional que tem medo da vida, tem medo de enfrentar a realidade com firmeza. Pois, como disse o ator Bruce Lee, “Esperar que a vida lhe trate bem porque você é uma boa pessoa, é como esperar que um tigre não lhe ataque, porque você é vegetariano”.
Por isto creio que nós devemos escolher: ser senhores de nossas vidas ou vítimas de nossos temores. Peço que façam a escolha certa!
Finalmente, seria muito bom se eu pudesse usar destas palavras para dizer que a vida é maravilhosa e que a vida é simples. Por este motivo digo exatamente isto para vocês. A vida é uma dádiva maravilhosa, na qual temos a oportunidade de mobilizar elementos da natureza material, para realizar valores espirituais permanentes. A vida é simples, mas isto não quer dizer que seja fácil. É possível entender que a vida é simples, mas não é possível explicar. Por isto nem vou iniciar uma explicação e, esta parte, esta descoberta, deixo como última lição de casa da graduação e primeira de sua vida profissional.
Gostaria apenas de deixar algumas sugestões, para execução desta tarefa de casa: busquem sempre simplificar a vida, busquem sempre ser pessoas confiáveis, cultivem o respeito e não tenham medo de amar, pois como está escrito “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.”
Por isto amem, mas amem sem apego, para seguir vosso caminho e permitir que os outros sigam os seus. Assim ninguém sofrerá nas despedidas, pois saberão que mais à frente se alegrarão com os inúmeros reencontros, ao longo desta vida e da eternidade.

MUITO OBRIGADO!